domingo, 30 de janeiro de 2011

Resposta



Na demagogia social
os nomes eruditos
são os únicos a serem ditos...
e para a mesma coisa
existe a palavra respeitável
e o nome inaceitável
que todo mundo usa,
conhece e fala
mas quando escutam
logo ficam indignados
com a cara feia
como se a bela e ressoante vagina
não tivesse o significado
da marginal e depravada buceta.

Nas duas caras
que insistem em manter
um punhado de gente
que se intitula sociedade
e diz do resto: "marginalidade"
falsidade é o sustento matriz
para deixar um povo infeliz
confuso e com medo
empurrado, também, para ter
um comportamento hipócrita
construindo, assim, uma triste história.

 E se você acha
que a minha língua é ferina
e que a minha palavra machuca
e em sua mente maluca
as barreiras da hipocrisia
vão-se até a poesia...
o seu horizonte limitado
não lhe deixa perceber
que neste mundo mal traçado
você é mais um a manter
a velhice e o atraso.

A minha língua ferina
é muito mais inocente
do que a sua mão de gente
fina e educada
mas também manchada
pelo sangue vermelho
que lhe escorre nos dedos...
o sangue sagrado
de um crucificado.









Nós Dois



A primeira vez em que nos vimos
nos olhamos de lado e discretos sorrimos
num cumprimento noturno
que teve por testemunho a noite estrelada.

A segunda vez em que nos vimos
eu estava num bar, numa mesa cheia
cantando sambas, com amigos e desconhecidos
embalado na beleza doce do luar que clareia.

Você passou e novamente me sorriu!
quis lhe convidar a sentar-se à mesa
mas preso em grilhões de imagens
paralisado em minha cadeira, não tive coragem.

A terceira vez em que nos vimos
você me pediu um pouco de fumo
e eu, meio tonto, sem rumo,
lhe entreguei todo o pacote... tremendo...
com medo que alguém estivesse vendo
a minha ansiedade.

Mas, daí em diante, todos os dias
do despertar ao anoitecer
não mais nos separamos
taça repleta de paixão transbordand’alegria
momentos de realidade, reflexos da ilusão.

Mas conspira o universo contra nós...
as putas parem a intriga por todos os lados
o destino poderoso impõe o tempo nosso inimigo atroz.
Nasce então um furacão violento a nos carregar
e, ao morrer em brisa, cumpre a triste tarefa de nos separar

Na última vez em que nos vimos...
em nossos peitos, palavras entaladas...
em nossos olhos a imagem do desejo...
em nossos corpos, vontades enjauladas!

O Lobo Perdido



O último lobo da matilha perdida
caminha com liberdade, vagando por morros e campos.
Encara a todos com olhar julgador
fala verdades proibidas
e vomita-lhes palavras por toda a cara.

Filho legítimo da lua
em pecado incestuoso com o sol
nasce o lobo santificado
com os poderes dum semi-deus.

Tem a sensibilidade da poesia
e a ferocidade do fogo impiedoso
que a tudo vai queimando.

Tenta o lobo viver discreto
os anos que restam de vida
mas fica a humanidade em agonia
só em pensar na suaexistência

"És tu, oh lobo, o Poeta infame
que não conhece o limite
e vive a vociferar nossa sina:
macacos que aprenderam a pensar."

"Matemos o lobo e calemos a poesia!"

Mas o lobo, animal violento
como manda o bestial instinto primitivo
morde, com raiva, quem quer lhe calar.


O Supliciado



O suplício de minh’alma
dói mil vezes mais
que a dor do francês
desmembrado a gritar...
A vontade que me arrebata
desde dias atrás
é acordar pela manhã,
chorar e não espriguiçar,
sair de casa sorrindo,
abraçar os amigos mais queridos,
esperar o crepúsculo defronte ao mar,
me deliciar com a mais bela vista,
lembrar-me do amor negado
pela maldição de um Deus irônico,
despedir-me da paranóia sociopata
e abraçar o oceano
deitando-me com as ondas
num ritual de paixão e morte.


A Um Amigo



Eu quero poder sentar-me
à sombra de uma árvore
e falar com amigos
sobre coisas agradáveis.

Queria que todo o sonho
se torna-se realidade
e que a vida voasse
nas asas do sonhador.

Mas meus desejos inoportunos
sempre levam-me à decepção
e após os infortúnios
só me restam cacos quebrados ao chão.

E quando chega a hora do arrependimento
a minha garganta entalada
aprisiona minha voz desgastada
e meus olhos refletem sentimentos.