domingo, 6 de fevereiro de 2011

Sarau do Poeta Hippie

Cassino da Vida – Sorte no Amor

Joguei os dados na mesa,
cortei as cartas do baralho,
escolhi um número na roleta
e a sorte está lançada.

Agora só depende de você...
só depende de você...

É preciso um parceiro
pra jogar no cassino da vida.
É necessário se arriscar
e quebrar as correntes, meu bem
se quiser viver como se quer
personalidade marcante, forte
para todo homem ou mulher.

A tola mesmice rotineira
foi criada para os bobos
aprisionando a todos
no podre preconceito social
do padre pregando a moral.

E tá todo mundo jogando...
dama, dominó ou xadrez.
E eu que te queria do meu lado
vejo o meio-campo embolado...
tá difícil dar um drible
e numa falta o juiz me expulsa
lá vou eu pro chuveiro, triste...

E com toda essa jogatina
procuro um ás na manga,
mas eu nunca fui trapaceiro...
nunca fui trapaceiro.

Então vou sair da jogada
e procurar o otário que inventou a piada
de que quem tem azar no jogo
tem sorte no amor...
sorte no amor.


Eu Quero Amar



Rasgue meu peito
e verás meu coração.
Ele sangra e se contorce
agonizando pela loucura.

Toque em meu rosto
e molharás a tua mão
encharcando-a com as lágrimas
que, teimosas, escorrem de minha íris.

Tua indiferença, porém, me mata...
cada sorriso aleatório me alegra...
um piscar de olhos me ressuscita...

E ainda tem um charlatão que fica
bem do meu lado querendo vender
a fórmula perfeita do amor.
E minh’alma, querendo-se ingênua
crendo em tudo, alto grita:
- Sim... eu quero amar!
- Sim... eu quero amar!
- Eu quero amar!

Eu e o Mundo

Quando nas sombras da noite
um vulto se levanta à minha frente
sinto a dor amarga d’um açoite
que ardendo consome as costas da gente.

Minha vida de artista
quiseram-na enterrada
numa elegante roupa, bem vestida
no corte certo do terno e da gravata.

Mas com a força d’um sorriso de criança
minh’alma aos céus elevou-se
nas asas seguras da esperança
como o sabor alegre de um doce.

O vento que roça as folhas das árvores
beija lânguido a minha face bela
acaricia o mar, brinca com a terra
o céu... é o vento que o risca selvagem.

O sol brilhando toda manhã
enche de calor e energia
os homens que nesta terra imensa
não entendem sua agonia.

E a lua num extremo oposto
chora luz constante
trazendo nas crateras espalhadas pelo rosto
a dor da ausência de seu desposante.

E qual, então,a minha surpresa
quando descubro, incrédulo,
que a sombra que me quer de presa
sai de dentro do meu próprio cérebro.

A Alma

A alma meu caro...
concreta matéria condensada
na máquina-corpo-homem.

A natureza humana...
cultural criação
da dialética antitesiática
da social relação
de cada instante histórico inscrito.

O exterior aí está!
Hoje assim como ontem
e para amanhã todas as possibilidades.
O mundo físico não muda
a não ser naquilo que a alma interage.

E, se alma-matéria
se matéria-energia
se energia-produção eletromagnética...
a alma comanda a máquina
em sua ação direta.

A natureza - nada perder-se!
constante transformação em movimento.
Negar a metafísica...
tão estúpido quanto afirmá-la.
Compreenda...
quando a máquina oxigena-se em ferrugem
abandonando-a, a alma morre.

Maria Lua

Maria morena
Maria baixinha
Maria graciosa
Maria gordinha
Maria...
gostosa Maria.

Maria sol
Maria lua
Maria nua
Maria só.

Maria noite
Maria dia
Maria com a foice
Maria melodia.

Maria fera
Maria em chama
Maria bela
Maria na cama.

Maria, que Maria, ave!
Ave Maria!
Maria simples
simplesmente Maria.



Em Você Nós Dois

Eu quero ver
o sorriso
do cara
da cara
fechada
zangada
por fim
se abrir.

Escuta aí
meu amigo,
ouça bem
o que lhe digo:
deixa de onda
sai dessa bronca
porque a vida é mais...
é alegria,
é paz
e pessoas a se amar.

Eu quero ver
no seu olho
meio fechado
desconfiado
o brilho de encanto
luzindo seu rosto
e até, quem sabe,
sentir o gosto
molhado do seu lábio.
Vamos quebrar o gelo,
perder o medo
apertar as mãos
abraçar apertado
abrir os corações
e fazer de nossas vidas
companheirismo
e cumplicidade
namorando a irmandade
que nasce nas almas
que acaso se encontram.

Em você
eu quero o perfeito!
o jeito bom de bem viver...
no seu colo encostar
minha cabeça e chorar...
acabar com a carência
e poder passar a vida
com calma e tranqüilidade
no fervor dessa amizade.












A Mãe do Pivete


O pivete corre...

Pega-pega ladrão!
Segura! Prende! Bate! Toma!

- Que foi que ele fez?
- Correu!
- Por que correu?
- Quem sabe?

O pivete chora!
Cala a boca, matraca!
Como é o seu nome?
Roubou o quê?
Cadê o outro?

- Nome não tenho
nem nada roubei...
minha mãe trabalha
e meu pai morreu...
sou só criança
batendo picula!

Constrangimento!
Indignação!
Revolta!
Brutalidade!
- Mentira! Vamos pro módulo
você vai falar o que roubou
vai contar tudo tim-tim por tim-tim
passa na frente, moleque!

Tapa na nuca!
Corpo no chão!
Olhos omissos!

- Socorro! Socorro!
- Cala a boca! - Chute na barriga!

Crueldade ao extremo!
Revolta popular!

- Pára, já! - Mãe protetora.

- Você pariu, pra fazer isso?

Tapa na cara!
Mão parada no ar!
Reação!
Soco na cara do canalha
Criança ferida no colo da mãe.

Chega a viatura:
- "vamu" acabar com o tumulto!

Pancadaria geral!

A picula do pivete
finda na loucura do Estado.
E o herói daquele dia
adota o menino
e desposa a mãe.



Passos

Passos perdidos em devaneios...
imagens amadas, quebradas,
almas magoadas, espatifadas...
e o controle se perde na noite
com palavras ditas sem querer
lágrimas corridas sem perceber
e logo, corações em mil pedaços
se fazem, cada um para um lado.

Passos inseguros na loucura
clareando como faróis a neblina
curtindo a doido qualquer aventura
vagando errante num barco de dor e amor...
cada sorriso é uma alegria
e olhares trocados um orgasmo
na sutileza de uma cobra sibilina
se rastejando com uma bola de prata.

Passos gostosos, prazerosos de um abraço
distanciados por barcos distintos
navegando pelos oceanos da vida
singrando os mares das paixões
em ondas gigantescas de puros sentimentos
que explodem em cogumelos atômicos
irradiando, poderosos, por toda parte
arroubos de grandes sofrimentos.
Passos a passos por becos e vielas
ruas proibidas, cravejadas de libertinagens
que vendem passagens para se voar
e andar por dentro de nuvens rosas
quando cai o sol, erguendo-se o crepúsculo
deixando no corpo, leve, cada músculo
abrindo para a mente o torvo mundo
e no fundo, no escuro, a luz se revela.

Passos... poemas que se versejam
e veja... ainda há tempo para os versos
para metáforas afloradas no peito
cultivadas nos jardins da imaginação
como as mais belas flores da Natureza
e misturando-se tudo, encanta a beleza
de risos largos e alegres, e qualquer briga besta
é outro ingrediente para se gritar – viva à poesia!


Desejo

Luz...
deixe a luz acesa
quero ver teu corpo
enquanto te amo...
quero olhar
tua nudez deita,
quero a luz
clareando tuas curvas...
quero sentir minhas mãos
passeando em teus seios
e deslizando por dentre tuas pernas...
quero nossos corpos nus,
colados,
viver um sacrilégio santificado.
Apague a luz...
no silêncio da escuridão
quero morrer
dentro de você.


Um Toque Erótico


Eu quero sentir
os lábios de minha boca
roçando de maneira louca
os lábios de sua buceta...
ah! menina eu não sou careta.


Fome

Fome



O menino chora
e sua mãe consola.

Mas não há
como consolar...
essa angústia sem nome
é simplesmente fome.

Fome cruel, avassaladora...
dor terrível, horrível,
que nem sua mãe,
doce genitora,
pode acalmar.

Inútil, tudo!

No Sertão dos retirantes
são apenas dois andantes
caminhando em busca de esperanças
num país que não as têm.

Mas Deus está lá, também!



Caminhos do Poeta

Aonde vais, Poeta?
 vou ver meu povo como está!
  vou ver minhas crianças chorando!
   vou ver minhas mulheres parindo!

Por onde vais, poeta?
 vou por becos escuros
  caminhando pelas ruas
   protegido pela lua
    vou entrando pelos bares
     e perdendo-me pelos bregas!

E depois, Poeta?
 depois, deixo meu canto solto no ar,
  deixo o meu amor gritar
   bebo bálsamo vermelho
    e durmo pra não acordar.



Que beleza
é uma roseira
com flores
abertas ao sol...
que tristeza
é uma rosa
presa num vaso,
          só!