quarta-feira, 23 de março de 2011

Múrmurios da Tarde

Écoute! tout se tait; songe à ta bien-aimée
Ce soir, sous les tilleuls, à la sombre ramée,
Le rayon du couchant laisse un adieu plus doux,
Ce soir, tout va fleurir: I'irnmortelle nature
Se remplit de parfuns, d'amour et de murmure
Comme le lit joyeux de deux jeunes époux.
A. DE MUSSET

Rosa! Rosa de amor purpúrea e bela! '
GARRET


Ontem à tarde, quando o sol morria,
A natureza era um poema santo,
De cada moita a escuridão saia,
De cada gruta rebentava um canto,
Ontem à tarde, quando o sol morria.

Do céu azul na profundeza escura
Brilhava a estrela, como um fruto louro,
E qual a foice, que no chão fulgura,
Mostrava a lua o semicirc'lo d'ouro,
Do céu azul na profundeza escura.

Larga harmonia embalsamava os ares!

Cantava o ninho-suspirava o lago...
E a verde pluma dos sutis palmares

Tinha das ondas o murmúrio vago...
Larga harmonia embalsamava os ares.

Era dos seres a harmonia imensa,

Vago concerto de saudade infinda!
"Sol — não me deixes", diz a vaga extensa,

"Aura-não fujas", diz a flor mais linda;

Era dos seres a harmonia imensa!

"Leva-me! leva-me em teu seio amigo"

Dizia às nuvens o choroso orvalho,
"Rola que foges", diz o ninho antigo,
'Leva-me ainda para um novo galho...


Leva-me! leva-me em teu seio amigo."




"Dá-me inda um beijo, antes que a noite venha!
Inda um calor, antes que chegue o frio..."
E mais o musgo se conchega à penha
E mais à penha se conchega o rio...
"Dá-me inda um beijo, antes que a noite venha!

E tu no entanto no jardim vagavas,
Rosa de amor, celestial Maria...
Ai! como esquiva sobre o chão pisavas,
Ai! como alegre a tua boca ria...
E tu no entanto no jardim vagavas.

Eras a estrela transformada em virgem!

Eras um anjo, que se fez menina!
Tinhas das aves a celeste origem.
Tinhas da lua a palidez divina,
Eras a estrela transformada em virgem!

Flor! Tu chegaste de outra flor mais perto,

Que bela rosa! que fragrância meiga!
Dir-se-ia um riso no jardim aberto,
Dir-se-ia um beijo, que nasceu na veiga...
Flor! Tu chegaste de outra flor mais perto!...


E eu, que escutava o conversar das flores,

Ouvi que a rosa murmurava ardente:

"Colhe-me, ó virgem, não terei mais dores,
Guarda-me, ó bela, no teu seio quente...
"E eu escutava o conversar das flores.

"Leva-me! leva-me, ó gentil Maria!"

Também então eu murmurei cismando...
Minh'alma é rosa, que a geada esfria...

Dá-lhe em teus seios um asilo brando...
"Leva-me! leva-me, ó gentil Maria!..."


Castro Alves

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