sexta-feira, 18 de março de 2011

O Gondoleiro Do Amor

    Teus olhos são negros, negros, 
    Como as noites sem luar... 
    São ardentes, são profundos, 
    Como o negrume do mar; 
    Sobre o barco dos amores, 
    Da vida boiando à flor, 
    Douram teus olhos a fronte 
    do Gondoleiro do amor. 
    Tua voz é a cavatina 
    Dos palácios de Sorrento, 
    Quando a praia beija a vaga, 
    Quando a vaga beija o vento; 
    E como em noites de Itália, 
    Ama um canto o pescador, 
    Bebe a harmonia em teus cantos 
    O Gondoleiro do amor. 
    Teu sorriso é uma aurora, 
    Que o horizonte enrubesceu, 
    -Rosa aberta com o biquinho 
    Das aves rubras do céu. 
    Nas tempestades da vida 
    Das rajadas no furor, 
    Foi-se a noite, tem auroras 
    O Gondoleiro do amor. 
    Teu seio é vaga dourada 
    Ao tíbio clarão da lua, 
    Que, ao murmúrio das volúpias, 
    Arqueja, palpita nua; 
    Como é doce, em pensamento, 
    Do teu colo no languor 
    Vogar, naufragar, perder-se 
    O Gondoleiro do amor!?... 
    Teu amor na treva é - um astro, 
    No silêncio uma canção, 
    É brisa - nas calmarias, 
    É abrigo - no tufão; 
    Por isso eu te amo querida, 
    Quer no prazer, quer na dor... 
    Rosa! Canto! Sombra! Estrela! 
    Do Gondoleiro do amor. 
    Castro Alves

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