quarta-feira, 6 de abril de 2011

Imagens Abstratas






Na faculdade,
nos muros do convento
eu olho pra parede e vejo
gravado no cimento mal rebocado
a imagem de um Cristo velho e irado.

As pessoas em derredor
conversam,
estudam,
fumam
e pensam
na sua ceguice
de compreender o mundo.

No céu negro
da noite fria
as imagens que se mostram
só eu consigo ver...

Em chamas decola a fênix
renascida, rumo ao infinito
dela surge o dragão
violento a cuspir fogo.
Logo mais outra aparição
e o rosto do homem
se transforma na face
branca e fria da morte.

O vento fala a língua da Natureza...
a chuva chora, gritando de dor ao atingir o chão...
a voz da brisa me revela o segredo universal
e me lesa em comunhão com o todo.
Num instante sou eu o Poeta louco
que vê imagens refletidas no céu e nas paredes.

Mas se o bem e o mal
andam em luta eterna
foram os dois que me disseram
para não tomar partido.
Sou destes um antigo amigo
pelos dois bem quisto
de uma irmandade remota...
Sigo então a minha sina
caminhando por entre
uma humanidade enlouquecida.






Fome de Quê?





Fome?
Quando ronca a barriga
e trovejam gritos de agonia
da fome não saciada
na criança de vida negada
a mãe, triste coitada
chora gotejos de sangue no coração.

Chega!
Basta da miséria instituída,
da hipocrisia escancarada
da esmola molengada
de se esconder o que falta
dando pão em migalhadas.

Pão... migalhas... fome...

Nós... nós temos fome de ciência
de trazer a erótica pro conhecimento
de pular os muros da escola
e construir a pesquisa pela mudança.

Para se amar mais que o possível
até se atingir a felicidade
e num momento de extrema sensibilidade
gritar bem alto a loucura
de querer com qualidade,
arte e cultura por toda parte.

E então toda família será digna
todo pai terá trabalho,
a fome deixará de ser o salário
e por fim reinará a segurança.

E de novo vamos sonhar com esperanças
na feitura dum país melhor
onde não haja mais exploração
e impere a igualdade, no dinheiro e na cor
e nesse dia chegou... querida revolução.


Pôr Do Sol No Fim De Tarde

A cidade se abre
em morros e vales
de uma floresta de concreto.

A vida vai passando
na velocidade que a brisa
vem empurrando as nuvens do céu.

As pessoas caminham
de um lado para outro
no corre-corre de seus deveres
e o fim do dia anuncia
a noite dos prazeres.

Cai a tarde
e o sol esconde-se
atrás do litoral.

A natureza, artista perfeita
pinta a aquarela multicor
no contraste crepuscular.

O véu celeste se descortina
mostrando ao mundo
a paisagem do paraíso.

E os olhos do Poeta,
alegres se umedecem
na contemplação da face divina.      

Maria Lua





Maria morena
Maria baixinha
Maria graciosa
Maria gordinha
Maria...
gostosa Maria.

Maria sol
Maria lua
Maria nua
Maria só.

Maria noite
Maria dia
Maria com a foice
Maria melodia.

Maria fera
Maria em chama
Maria bela
Maria na cama.

Maria, que Maria, ave!
Ave Maria!
Maria simples
simplesmente Maria.


A Um Amigo



Eu quero poder sentar-me
à sombra de uma árvore
e falar com amigos
sobre coisas agradáveis.

Queria que todo o sonho
se torna-se realidade
e que a vida voasse
nas asas do sonhador.

Mas meus desejos inoportunos
sempre levam-me à decepção
e após os infortúnios
só me restam cacos quebrados ao chão.

E quando chega a hora do arrependimento
a minha garganta entalada
aprisiona minha voz desgastada
e meus olhos refletem sentimentos.



segunda-feira, 4 de abril de 2011

Vaidade

Debaixo do sol
tudo é vaidade
e vento que passa
numa brisa suave
a caminho do mar...

Vaidade das vaidades!
-Tudo é vaidade!-
Que adianta ao homem do campo
matar-se ao sol,
esforçando-se em sua labuta
se no fim da vida, após a luta
tudo reduz-se a nada e o homem é pó?

Vaidade das vaidades!
-Tudo é vaidade!-
De que serve à mulher faceira
horas gastas ao espelho, assim
se pintando de falsa beleza
se com os anos a Natureza
guarda a gravidade como fim?

Vaidade das vaidades!
-Tudo é vaidade!-
O que presta ao artista
do palco as luzes artificiais
se depois tudo se desliga
e aplausos não ecoam mais?

Debaixo do sol
tudo é vaidade
e vento que passa
numa brisa suave
a caminho do mar...

As Palavras



As palavras
jogadas ao vento
se esvaem como a fumaça acre do cigarro.
Sua transparência
não rima com a eloqüente
densidade falseada
pela falta da prática.
De que servem palavras vazias?
Para serem o piso da demagogia
de oradores hipócritas?
Não!
Definitivamente, não!
Mil vezes, não!
Eu concebo a palavra
como sendo o prenúncio dos atos.
As retóricas sem desdobramentos ativos
não cativam meu cérebro exigente.
Como poeta,
vejo nas palavras
o início da possibilidade de mudanças.
Em nenhuma outra
enxergo tão forte comoção:
a ti, entrego a minha vida, Revolução!


O Homem

  









Quando chega o desequilíbrio cósmico
toda pura energia, de dor desespera:
padece o mundo com o câncer maligno
suicida-se o Homem na podre atmosfera.

Os gases fétidos desta pústula
enlouquecem os parasitas que vivem na Terra...
Construindo a mais triste História da Loucura
é o Homem que na insanidade se soterra.

Mas qual o motivo de tanta agonia?
Ah!... És tu, oh! Animal da razão
que querias quebrada a lei da selva

E agora andas perdido em tua pretensão
pois não consegues ver com clareza
que o presente de teu parto é a própria paranóia.





sexta-feira, 1 de abril de 2011

Orgônes












Nasce o sol por trás dos montes verdejantes
e a brisa bucólica da orvalhada matinal
beija suave tua doce face, bel’amante
enquanto despertas após a noite morna e frugal.

No leito macio de nossa suada guerra
admiro, imberbe, tua beleza descansada
vendo em tua fronte o reflexo da própria Terra
dançando alucinada no universo sua órbita elipsada.

E no corpo, ainda um tanto sonolento
alteiam-se sobre os músculos, minhas veias
fazendo o sangue inquieto mais depressa correr.



Ponho-me, então, retesado em tua presença
e reacendo para o amor a indispensável vela
que fervendo nossos corpos, nos faz morrer

Teu Sorriso



Teu sorriso brilha
iluminando meu coração...
E de repente eu derreto
e me enterro em teus braços
me perdendo em teus abraços.
Minha comida são teus lábios
e tua língua em minha boca
revira minha mente louca
e o mundo a minha frente
não tem mais sentido com essa gente
que nos olhando fica
com inveja e nos condena...
E quando penso que compensa
amar assim de forma intensa
você cai fora da minha vida.

Sentimentos E Razões

Fortes são as Chuvas de Verão!
Necessárias... imprevistas...
Pancadas de amor entre o sol e a lua
refrescam calores contidos, suados,
endoidando a cabeça dos homens
que se dando às loucuras da liberdade
se abrem para as violências e prostituições
do mundo humano inventado
na vontade insana do espelho caído
que de luxúria cega a gente.
A Natureza em lágrimas
chora no frio da noite
lamentações em ventos uivantes
sussurrando lamúrias nos ouvidos
do romance impossível dos astros.
E é a angústia infinita da paixão
que afasta com dor verão e inverno,
nos limites do céu e do inferno,
dividindo sentimentos e razões.


Poeminha do operário

Que poema é o operário!
Ama em cada verso,
sofre em toda estrofe,
morre em qualquer poesia!

     

Odesia


No silêncio de meus pensamentos
ruidosamente um muro se levanta.
Os meus versos perdidos,
escritos numa resma incinerada,
banidos ao limbo do esquecimento,
deixaram em mim apenas o odor da lembrança.

Poemas que vão, não voltam.
Somente abrem estridentes a porta
para que outras rimas, de mim brotem
meu estilo, por muitos questionado
é só meu, de mais ninguém.
Sou na minha originalidade, bastante comum.
De nada me importa o status gramatical,
não julgo as rimas como pobres ou ricas.

Quem sou eu para compreender a plenitude
daquilo o que simplesmente existe?
Sim... pois a poesia não se faz...
Ao contrário ela se mostra inteira
e quando o Poeta persiste
em um fragmento de palavras, da sua mente ela sai
fluindo na beleza das estrofes.

Sua musicalidade, vou ouvi-la
na sinfonia harmônica do universo...
Sua beleza, no contraste inquieto
da minha vida singular
sua importância, vou medi-la 
em meu peito com cada golfada de ar... 
Até a morte!


Alucinógenos


Enquanto a guitarra
rasga o espaço
com seu som alucinógeno,
eu embarco
em uma viagem psicodélica
sentindo em minha boca
o sabor doce do absinto
e a fumaça macia
de um cigarro de palha.

As luzes iluminam a cidade
Na noite fria de quinta-feira...
a melancolia dança pelos ares
ao som da música hipnótica.
Lá dentro me esperam
pra mais uma presença na aula.
 
O mestre pedante no pedestal
mostra aos a-lunos a ignorância
e lhes ensina o caminho da verdade.

E já não posso ouvir a música
pois tá chegando a hora
e tenho que ir pra aula
ouvir coisas duvidosas
e silenciar em minha resposta.

Ser Revolucionário

Amigo, você que a todo instante
pergunta e quer saber
o que é ser Revolucionário, guerreiro errante
escuta as palavras que venho lhe dizer.

Aquele que não tem medo da cousa nova
e do passado se liberta, quebrando as algemas
e sabe ter todo o homem a alma gêmea
ligando-o ao outro, muito além da carne,
põe-se corajoso, sob qualquer prova.

Ser revolucionário é banhar-se sorridente no sol de cada dia
é fazer da palavra morta o vivo canto da poesia
é ter para com o povo, pobre, humilde e trabalhador
mais do que compaixão
e sentir na pele a sua dor.

Por fim, amigo, ser revolucionário é amar
com toda a força da alma e o infinito do universo
todas as pessoas ao seu redor,
todas as coisas que no mundo tem lugar...
é tornar-se Poeta, ainda que não verse.