Castro Alves - Uma Vida De Poesia

Antonio Frederico de Castro Alves nasceu em 14 de março de 1847 na fazenda Curralinho, município de Muritiba, no estado da Bahia. Entrou para a história como o “Poeta Abolicionista”, ou o “Poeta dos Escravos”. Mas sua vida (toda ela) poderia ser definida como um verdadeiro épico, uma epopéia digna de Homero e dos grandes heróis gregos.
                Seu pai, Antonio José Alves, foi Professor da Faculdade de Medicina, em Salvador, para onde a família mudou-se em 1853. Sua mãe, Clélia Brasília da Silva Castro, faleceu quando o poeta tinha 12 anos (um ano antes de declamar publicamente pela primeira vez). Matriculou-se no colégio de Abílio César Borges (o Barão de Macaúbas) onde foi colega de Rui Barbosa e começou a despontar sua paixão pela literatura. Foi um dos primeiros tradutores da poesia de Vitor Hugo, com quem se identificava em sua arte. Em 1862 mudou-se para a cidade do Recife, terminou os preparatórios e, em 1865, se matriculou na Faculdade de Direito, sendo colega, no 1º ano, de Tobias Barreto, com quem mantinha duelos literários, nas noites pernambucanas para o deleite das platéias. Em 1866, Castro Alves perdeu o pai e conheceu o grande amor de sua vida: a atriz Eugênia Câmera.
                Castro Alves tinha sangue revolucionário. Seu avô materno José Antonio da Silva Castro foi herói da guerra do dois de julho, a qual livrou, definitivamente, o Brasil do domínio português e seu tio, o alferes João José, foi um herói da Guerra do Paraguai, o qual ajudou a lhe incutir o amor pela liberdade e o horror à escravidão. Este João José, inclusive, era figura folclórica em Salvador da época, fazendo sempre comícios contra o governo, pela república e pela abolição. Certamente deve-se a estas influências e heranças o aspecto revolucionário de sua vida.
                Eis aí uma grande questão que não se pode nunca esquecer sobre Castro Alves: sua vida revolucionária. E, com certeza, é isto que o mantém tão vivo no imaginário de nosso povo baiano e brasileiro: seu desejo inquieto por transformações. Em todos os sentidos, Castro Alves sentiu e viveu esse desejo por mudanças.
                Podemos começar pelo básico: sua obra poética! Castro Alves está entre os poetas do Romantismo. Como sabemos este movimento literário é profundamente marcado pelo constante sentimento de saudades, pelas dores, pelos amores inatingíveis que se refletem no alucinado desejo de fuga, traduzido numa vontade, quase louca, de se encontrar com a morte, a maior de todas as fugas. Assim os poetas deste tempo viveram tão intensamente as boêmias, as farras que, quase sempre, morriam vitimados pelo maior mau da época: a tuberculose. Sempre precocemente.
                Mas castro Alves, em seu Romantismo foi diferente: trocou as paixões platônicas e inatingíveis por amores reais. Viveu como pôde sua paixão desenfreada por Eugênia Câmara e amou ainda muitas outras mulheres. Também ansiava pela vida. Não era um poeta que queria fugir, mas enfrentar as situações. Não queria morrer, mas viver com toda a força e a intensidade de sua poesia e ideais. Não procurou a morte... Antes foi ela que, mulher apaixonada, não resistiu aos seus encantos.
                Senão, vejamos o que diz o próprio poeta em fragmentos do seu “Mocidade e Morte”:

“Oh! Eu quero viver, beber perfumes
Na flor silvestre, que embalsama os ares;
(...)
No seio da mulher há tanto aroma...
Nos seus beijos de fogo há tanta vida...
(...)
(...)
Morrer... quando este mundo é um paraíso,
E a alma um cisne de douradas plumas:
Não! O seio da amante é um lago virgem...”
(Castro Alves – Mocidade e Morte in Espumas Flutuantes)

                Fica nítida que este poeta representante do Romantismo possuía uma diferença ímpar de seus pares do movimento literário. Por isto, foi ele o marco pioneiro da terceira geração de poetas românticos, a “Condoreira” e que traçou a transição para o fim deste movimento literário e o início do Realismo. Sim, podemos dizer que Castro Alves foi um “Romântico Realista”.
                E tão amante da vida foi o Poeta que não podia se imaginar ladeado pelos “sepulcros caiados” de um cemitério aonde tudo cheira e lembra a morte. Castro Alves tinha tanto horror a esta idéia que pediu para que seu cadáver não fosse lançado num mausoléu.
“Quando eu morrer... não lancem meu cadáver
No fosso de um sombrio cemitério...
Odeio o mausoléu que espera o morto
Como o viajante desse hotel funéreo”.
(Castro Alves – Quando Eu Morrer in ibidem)

                Bem se vê que o Poeta dos Escravos era também o Poeta da Vida. Tanto que seu pedido foi atendido por seu povo e os restos mortais de Castro Alves, longe de se encontrarem repousando no silêncio abismal de um cemitério triste e frio, encontram-se guardados na Praça, que em Salvador leva o seu nome e ergue-se a sua estátua. Longe dos mortos que nada sentem, Castro Alves está no centro da alegria deste povo, aonde o carnaval é comemorado, onde os artistas, todos os anos, passam em seus trios elétricos e param para lhe reverenciar... aonde ele aponta o mar e banha com sua sombra o beijo dos namorados ainda hoje... Assim é o Poeta.
                Também das inquietações sociais de seu tempo, Castro Alves fez parte. Amante da Liberdade como poucos se viu neste lado das Américas, participou o quanto pôde dos movimentos abolicionista e republicano. Eivado pelo sangue guerreiro que lhe fervia as veias, participou de comícios em Salvador em prol da república. E se hoje em dia os protestos populares são tão combatidos por aqueles que não aceitam questionamento a seu poder, pode-se imaginar que naquela época era ainda pior. E, pelo que nos narra um lírico Jorge Amado, foi em um desses comícios, reprimido pela Guarda com balas e cavalos, que Castro Alves elevou-se em um caixote de madeira para, em meio à turba, proclamar:

“A praça! A praça é do povo
Como o céu é do condor.
É o antro onde a Liberdade
Cria Águias em seu calor
Senhor... pois quereis a praça?
Desgraçada a populaça
Só a rua tem de seu...
Ninguém vos rouba os castelos
Tendes palácios tão belos...
Deixai a terra ao Anteu.
(Castro Alves – O Povo ao Poder in Os Escravos)

                Infelizmente o Poeta faleceu extremamente jovem, aos 24 anos. No dia 6 de julho de 1871, Castro Alves faleceu em sua residência no solar da Boa Vista, aonde hoje funciona a Secretaria de Educação e Cultura da cidade de Salvador.  Muitas outras coisas tem para se falar e escrever sobre este poeta que, nas palavras de Jorge Amado, foi uma daquelas estrelas que, de tempos em tempos, descem do céu e nascem na Terra. Por agora cumpre-nos o propósito da homenagem pelo seu dia.





Bibliografia:

ABC DE CASTRO ALVES (Amado, Jorge. Ed. Companhia das Letras)
Espumas Flutuantes (Castro Alves, Antonio Frederico de. Ed. Klick)
Os Escravos (Castro Alves, Antonio Frederico de. Ed. Klick)